A relação médico-paciente poderia ser diferente?

A vocação de se dedicar ao doente e à pesquisa científica que alguns profissionais têm e exercem de maneira nobre, é cada vez mais rara nos tempos atuais. Ser médico custa caro e leva tempo.

Por: Renata Vilhena Silva

No dia do médico,  gostaríamos de agradecer a dedicação de todos aqueles que exercem sua profissão com dignidade, prestando assistência aos nossos clientes, muitas vezes deixando suas casas e filhos para socorrê-los na hora da dor ou aflição e, ainda, aos que atuam como nossos parceiros técnicos, fornecendo informações e nos auxiliando na busca de uma solução mais justa na área da saúde complementar. Um dia de homenagens é pouco para um profissional que abdica de sua vida para cuidar de outras. Mas, hoje, caberia também uma reflexão sobre as relações médico-paciente.

Nos últimos anos registramos muitos avanços tecnológicos na medicina e muito retrocesso na relação médico-paciente.

Podemos falar da desvalorização da profissão, da banalização da saúde, dos valores muito baixos pagos pela seguradoras e da desatualização das tabelas de reembolso, recentemente 90% da categoria aderiu à greve contra os planos de saúde e, por outro lado, dos valores astronômicos cobrados pelos médicos particulares que não atendem os convênios.

A vocação de se dedicar ao doente e à pesquisa científica que alguns profissionais têm e exercem de maneira nobre, é cada vez mais rara nos tempos atuais. Ser médico custa caro e leva tempo. Dados do Conselho Regional de Medicina no Estado de São Paulo, CREMESP, em 2007, indicam que havia 2,3 médicos para cada mil pessoas no Estado de S. Paulo. O que aconteceu com uma profissão altamente respeitada e valorizada em que o doutor era quase um deus? Podemos fazer inúmeros questionamentos, como perguntar por onde anda o médico de família? Aquele que podia buscar a origem das mazelas e estabelecer conexões entre os familiares e as doenças. Mas, para essa pergunta, haveria outra anterior: o que é a família hoje? Ela também não existe mais nos moldes de antigamente. 

Será que o desenvolvimento científico que tantos benefícios trouxe à saúde, prologando a vida da população e diminuindo seu sofrimento, ironicamente, é o vilão da história e o responsável pela crise na relação médico-paciente?

Ou seria, ainda, a superespecialização responsável por ter afastado os médicos de seus pacientes? Quem sabe hoje o que é anamnese? O sujeito vai à consulta e o médico nem sequer pergunta qual a sua ocupação, não o escuta e nem o auscuta mais. A doença humilha, deprime e angustia e o médico não consegue ter paciência de lidar com estas questões ou, ainda, ter uma atitude de acolhimento, que surte melhor efeito que o remédio, na maioria das vezes.

Para se defender do descaso, o paciente, por sua vez,  recorre ao Google, que já foi apelidado de o melhor médico do mundo porque conhece todas as enfermidades. Com sua bagagem da internet, o paciente discute com o profissional e já traz suas receitas de casa.

Como  cumprir o juramento de Hipócrates, numa sociedade altamente capitalista onde a saúde também é comercializada? E ainda, onde o carinho – também possível numa relação profissional – se confunde com o assédio? O médico, exceções à parte, também é vítima de um sistema complexo, carece que o escutem, que o remunerem de forma justa, que não imponham horários e condições desumanas de trabalho, como vemos em reportagens quase todos os dias.  Ele também se sente pressionado e não pode, como todo ser humano, errar. Nos Estados Unidos, os médicos pagam seguros milionários com medo dos processos de malpractice.  Pra que o médico possa cuidar e curar quem necessita, o governo teria de rever posições no que diz respeito à educação, saúde e administração. Poderia começar com um bom exemplo, ouvindo as queixas de quem o elegeu, fazendo uma assepsia, extirpando a doença crônica da corrupção e os “tumores malígnos” que impedem que nosso país tenha saúde e vida longa.

Não é possível que haja um único vilão na história das relações médico-paciente, elas estão extremecidas por uma série de fatores e, talvez, o mais grave seja a ética, que permeia o ser humano em qualquer profissão. É ela que rege as relações humanas e é ela que anda em falta nos dias de hoje.

Feliz dia do médico!

Com respeito e admiração, 

Renata Vilhena e Equipe



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